Um retrato

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Caponga – CE (2017), Lucas Lopes.

Hoje escrevo deitado sobre a areia fofa da praia de Caponga. Mesmo onde me acomodo, habita o mar, que ora tímido se recolheu. E porque se recolheu, o povo desceu para o ofício. Vejo uma dúzia de pescadores que contemplam a divindade fluida, esperando que dê-lhes a graça de uma rede cheia. Mas eu queria falar das rochas nuas, expostas pela maré baixa. Resistentes. Fixas. Moldadas pela força do mar – ora bravo, ora brando. Tal como nós, estão continuamente nesse ciclo de afogamento e ascensão, em que o sol abençoa e o vento refresca. Tal como os pescadores, plenos de esperança e de história.

Permaneço a apreciar esta paisagem adornada pelas aves que voam contra a força do vento.


Lucas Lopes. 22 de julho de 2017.

Das crenças

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Elie, du haut du mont Carmel, annonce la pluie prochaine avant qu’un seul nuage paraisse dans le ciel [I, Rois, XVIII, 41-46] (1956), Marc Chagall.

Não sou crente. Há alguns anos me distanciei de qualquer crença e definição. Estava no 038, na última semana, sentado ao fundo. Ouvia uma voz em melodia. Não conseguia entender o que cantarolava. Só conseguia perceber a mudança de ritmos. E então notei que havia uma mudança rápida de música. Aproximou-se da hora de deixar o coletivo, no Benfica. Dirigi-me para a saída. Pude ver o cantor, sentado no banco logo atrás da porta de desembarque. Um senhor, com sinais de abandono, roupas sujas e velhas. Os pés feridos. Aparentemente com alguma deficiência mental. Sozinho. Contudo crente. (mais…)

Sobre poesia marginal

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Seja Marginal, Seja Herói (1968), Hélio Oiticica.

Mais uma história de ônibus. E eu acho que sou muito sortudo em ser da periferia e em ser curioso. Mas dessa vez minha curiosidade não teve nada a ver com isso, juro. Foi a poesia. Culpa dela. Despretensiosa, roubou a minha atenção. Pensando melhor, havia muita pretensão, sim. E como havia!

Eu, aluado, voltei minha audição para a poesia que soava no 077. Dois rapazes abordaram o coletivo (mais…)

071

Dalle cose comuni che mi accadono, tra le più speciali, stanno i ricordi che ho quando sto guardando dal finestrino dell’autobus. L’abbozzo di un sorriso è istantaneo. A volte la nostalgia arriva come una brezza e mi da dei brividi. Altre volte, come quando ho fatto un lungo viaggio dall’Università alla Spiaggia di Iracema, nel 071, in cui tutto il cammino mi ha portato dei ricordi. Ricordi di cose semplici e piccole, di due anni fa, di quindici anni fa. Questo mi porta felicità. E c’è molto da vedere con la memoria e l’identità della città. Ci accorgiamo di quanto importante è la nostra storia, segnata nei muri, nelle piazze, nell’architettura, negli alberi giovani o centenari, nei colori dei muri e del popolo, nella pelle della nostra gente. Ed io mi affeziono a questo, che mi porta un sentimento di amore per Fortaleza che è grande. Ed io mi affeziono a questo, in modo tale da diventare dipendente dal movimento della città. Ed io mi affeziono così, al punto che il mio corpo agonizza ad ogni albero strappato dai grandi viali, per dove ora passano tante macchine; ad ogni bel palazzo vecchio demolito, da dove scaturiscono edifici enormi e brutti (sempre con la bugiarda promessa di bellezza venduta). Fortaleza punita ed io punito insieme. Fortaleza benedetta per il tramonto ed io benedetto insieme.

Da molto tempo cercavo questa identità.

Lucas Lopes.


 

Tradução para o português

O Corvo: O homem como um ser cultural e a festa de babette

“Há muitas definições sobre o homem, das mais diversas e variadas, onde o homem seria um ser político para Aristóteles, mas para o cristianismo ele seria um ser espiritual, para Marx, um ser trabalhador, a sociologia diz que o homem é um ser social e, por fim, após o advento da antropologia, o homem é considerado um ser cultural. Com todas essas assertivas sobre o que é o homem, nasce a indagação: O que é, de fato, o homem?

Sem qualquer pretensão de finalizar o assunto, muito menos mostrar como verdade absoluta, neste trabalho busco demonstrar que o homem é, de fato, um ser cultural, afinal, se analisarmos, todas as outras “definições” do que é o homem, elas agregam somente um aspecto do ser humano, mas não o todo. O homem vai além de ser somente político, espiritual, trabalhador ou social, ele engloba todas essas características e vai além, tornando-o um ser político, espiritual, trabalhador e social, algo que, se analisarmos com um pouco de calma, engloba características de um grupo social, ou seja, de uma cultura.”

Leia mais em: http://wp.me/p8S45t-O

Texto por: O Corvo

Sujeito Indireto

Paulo Leminski


Quem dera eu achasse um jeito
de fazer tudo perfeito,
feito a coisa fosse o projeto
e tudo já nascesse satisfeito.
Quem dera eu visse o outro lado,
o lado de lá, lado meio,
onde o triângulo é quadrado
e o torto parece direito.
Quem dera um ângulo reto.
Já começo a ficar cheio
de não saber quando eu falto,
de ser, mim, sujeito indireto.

O Corvo: Fahrenheit 451 e o silenciamento cultural

“O Brasil é um país recheado de contradições. Temos discursos e ações que digladiam de forma feroz dentro do cotidiano das pessoas e elas, ao menos, conseguem perceber o quão antagônico é a realidade em que vivem. Um deles é falar que os jovens devem estudar para ser alguém na vida, no entanto, quando eles encontram uma vertente artística que podem se expressar e começam a estudá-la e se reunir para demonstrar a sua arte, são chamados de vagabundos e sofrem com abordagens policiais, nada, amigáveis.”

Leia mais em: http://wp.me/p8S45t-m

Texto por: O Corvo

071

Das coisas comuns que me acontecem, entre as mais especiais, estão as lembranças que tenho quando estou olhando pela janela do ônibus. O esboço de um sorriso é instantâneo. Às vezes a saudade chega como a brisa e me faz cócegas. Outras vezes, como quando fiz uma longa viagem entre a Universidade e a Praia de Iracema, no 071, em que todo o caminho me trouxe lembranças. Lembranças de coisas simples e pequenas, de dois anos atrás, de quinze anos atrás. Isso me traz felicidade. (mais…)

Nebulosidade III (ou Correnteza)

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После бури. Восход луны (1894), Ivan Aivazovsky.

Corre o rio da vida numa velocidade que eu não consigo acompanhar. Meus pés sujos e descalços sentem o chão gelado do azulejo como forma última de se sentirem livres. Em todas as direções do alcance da janela do quarto, meus olhos enxergam o cinza que precede a noite chuvosa. O frio talvez seja o único companheiro em noites que a chuva castiga e aprisiona. A caneta suga e o papel cobra atenção. Não são meus amigos. (mais…)