Hiato

Há muito tempo não escrevo e não sei quando o farei novamente. Só resta agradecer aos que acompanharam até aqui.

Até.

 

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A crise

Eu sorri. A vida, ainda que dolorida, tem me possibilitado sorrisos. Naturalmente estava com sono, dada hora em que me encontrava naquele coletivo lotado.

Subiu e começou seu discurso que parecia aquele habitual dos vendedores de doces que essa crise fez surgirem em grande número, como forma de escaparem da fome e da miséria. Apresentou-se. Bom dia. Mostrou o que seria o seu produto. Então o distribuiu aos passageiros daquele coletivo cinzento. Uma singela balinha. Uns recebiam, outros não. Uns pegavam por hábito, outros refutavam de modo educado. Uns olhavam estranho por ser somente uma balinha, outros rejeitavam com desdém. Continuar lendo “A crise”

A centenária

Dias atrás conheci uma centenária. Para lá do que ela viveu e de toda a história que carrega e exala, me impressionei com a sua postura. Vi uma alma tão ou mais jovem que a minha. Cheia de vida – no sentido atemporal de palavra. Cheia de vigor e elegância. E sua elegância deriva mesmo das suas vestes e de como se dispõe sobre sua cadeira de rodas: firme e fervorosa.

No recinto em que nos encontrávamos, fazia rir a todos. Divertia a mesa com suas piadas e jogava conversa fora. Um doce. Contou que faz crochê. Para mim, está mais que claro que ali contém muita força e muita vontade de viver, muito amor por viver.


Lucas Lopes.

Pássaro

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Man With His Head Full Of Clouds (1936), Salvador Dali.

Viajei através das nuvens oníricas
que me ligavam debilmente a ti
na esperança frágil de encontrar
a lareira acesa, mas falhei e não sei

não sei como entrei nesse poço profundo
do qual a saída eu não a alcanço, e que
as paredes rígidas e odorosas me te fazem
recordar. não há suplício maior que
de peixe afogado. eu fali e não sei Continuar lendo “Pássaro”

Quote

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Portrait of Rodo Pissarro Reading (c.1899 – c.1900), Camille Pissarro.

Nesses poucos anos de blogue pude conhecer e ler muita gente boa. Verdadeiros artistas. Uns mais criativos, outros mais sentimentais. O resultado, independente da técnica, é sempre incrível. Uns textos são simples, outros são sofisticados, mas a qualidade é sempre surpreendente.  Então pensei: “Por que não compartilhar esse textos tão bons?”.

Não sei com que frequência poderei fazê-lo. Nem prometo frequência. Pretendo, contudo, fazê-lo outras vezes. Para mim funciona como forma de reconhecer colegas que têm potencial, fazer com que sua arte chegue a outras pessoas.

Para iniciar, apresento a vocês algumas das leituras que fiz hoje.  Continuar lendo “Quote”

Te

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L’homme blessé (1844 – 1845), Gustave Courbet.

deito sereno
a relva é meu leito
aqui o vento soa belo

e aqui dentro o mundo se tornou tão bonito
pinturas tristes já não enfeitam meu quarto velho

e fecho os olhos para a realidade
então vejo toda essa beleza
em forma de saudade

tua calma é tão bonita
e teu olhar é tão sincero
eu quero assim, mas tenho medo Continuar lendo “Te”

O Nada

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Sun in an Empty Room (1963), Edward Hopper.

é estranha essa sensação de vazio
como tudo fosse oco, fosse seco, fosse cinza
como tudo se fosse

para onde foram o sentir, o dizer, o doer, o prazer?
para onde foram o ver, o saber, o sofrer?

onde está o amar, o mar, o ar, a poesia?

e toda aquela sensibilidade, que fim tomou?
e a angústia? e a saudade? Continuar lendo “O Nada”

Pequena crônica de estrada

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Terrace in Zhukovka (1888), Konstantin Korovin.

Foi uma longa viagem entre Fortaleza e Salvador. Dentre as minúcias da estrada, minha atenção se voltou apenas para uma. Essa tal é de uma beleza comparável ao verde rico da Caatinga depois de um banho generoso. Um senhor. Avistei um senhor. Estava sentado no alpendre da sua pequena casa. Senti, de início, inveja do que aqueles olhos já viram. Mas depois senti curiosidade pelas centenas de histórias que poderia ouvir de seus lábios. Enfim me senti feliz por essa possibilidade e, triste por tê-lo perdido de vista, dada a velocidade em que passava por aquele trecho.


Lucas Lopes. 26 de julho de 2017.

Um retrato

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Caponga – CE (2017), Lucas Lopes.

Hoje escrevo deitado sobre a areia fofa da praia de Caponga. Mesmo onde me acomodo, habita o mar, que ora tímido se recolheu. E porque se recolheu, o povo desceu para o ofício. Vejo uma dúzia de pescadores que contemplam a divindade fluida, esperando que dê-lhes a graça de uma rede cheia. Mas eu queria falar das rochas nuas, expostas pela maré baixa. Resistentes. Fixas. Moldadas pela força do mar – ora bravo, ora brando. Tal como nós, estão continuamente nesse ciclo de afogamento e ascensão, em que o sol abençoa e o vento refresca. Tal como os pescadores, plenos de esperança e de história.

Permaneço a apreciar esta paisagem adornada pelas aves que voam contra a força do vento.


Lucas Lopes. 22 de julho de 2017.

Das crenças

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Elie, du haut du mont Carmel, annonce la pluie prochaine avant qu’un seul nuage paraisse dans le ciel [I, Rois, XVIII, 41-46] (1956), Marc Chagall.

Não sou crente. Há alguns anos me distanciei de qualquer crença e definição. Estava no 038, na última semana, sentado ao fundo. Ouvia uma voz em melodia. Não conseguia entender o que cantarolava. Só conseguia perceber a mudança de ritmos. E então notei que havia uma mudança rápida de música. Aproximou-se da hora de deixar o coletivo, no Benfica. Dirigi-me para a saída. Pude ver o cantor, sentado no banco logo atrás da porta de desembarque. Um senhor, com sinais de abandono, roupas sujas e velhas. Os pés feridos. Aparentemente com alguma deficiência mental. Sozinho. Contudo crente. Continuar lendo “Das crenças”

Sobre poesia marginal

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Seja Marginal, Seja Herói (1968), Hélio Oiticica.

Mais uma história de ônibus. E eu acho que sou muito sortudo em ser da periferia e em ser curioso. Mas dessa vez minha curiosidade não teve nada a ver com isso, juro. Foi a poesia. Culpa dela. Despretensiosa, roubou a minha atenção. Pensando melhor, havia muita pretensão, sim. E como havia!

Eu, aluado, voltei minha audição para a poesia que soava no 077. Dois rapazes abordaram o coletivo Continuar lendo “Sobre poesia marginal”