Calor em cinco atos

I

Senti-me observada. Boa tímida que sou, virei o rosto e fingi atenção ao que diziam naquela reunião que parecia não ter fim. Tornei e vê-la, e meus olhos estavam sendo mirados pelos seus, ainda. Arrepiei-me e abaixei a cabeça. Uma pessoa que, até então não conhecia, possuía esse poder de me desconsertar. Não a olhei mais. Esperei dar a hora e fui embora às pressas sem olhar para trás.

Alguns dias depois a vi ao longe. Na verdade, não por descuido, mas por coincidência, estávamos no mesmo bar, em mesas diferentes, uma sentada com pessoas desconhecidas para outra, talvez. Ela me sorriu. Projetei um sorriso tímido e virei minha atenção ao que meus amigos falavam. Senti que ainda me observou por mais algum momento. Não pude segurar a curiosidade por tanto tempo. Olhei novamente na direção dela. Estava linda, com seus cachos curtos, a gargalhar entre seus companheiros de mesa. Fiquei aparvalhada por alguns minutos, até que: “Está tudo bem?”

“Sim, estou ótima!”, respondi. E ela então se virou para mim outra vez. Timidamente abaixei o rosto e fingi ajeitar os fios de cabelo. Quando olhei de novo, estava se despedindo dos seus amigos. Foi embora. Tive vontade de segui-la. Queria saber aonde iria, se voltaria, por medo de não saber se a veria novamente. Não me levantei.

II

marcado o fim do inverno
margaridas nos parques
canto dos pássaros
frescor da brisa nova
calor do centro
sorriso longe
coração aquecido.

III

Estávamos deitadas na grama. Lado a lado. Viramos o rosto uma para o outra. Sorrimos. Ficava ainda mais linda sob a luz do Sol das dezesseis horas. Os cachos perfeitos brilhavam junto do seu sorriso. Não poderia estar melhor. Ela se levantou e me fez segui-la. Levantei-me.

Fomos até uma linda árvore que se encontrava ao lado de uma lagoa. Sentamos sobre as margaridas, onde a árvore fazia sombra. Decidiu tocar seu ukulele e cantar uma canção para mim. Decidi desenhá-la. Delicada. Corpo magro. Pele brilhosa. Sorriso radiante. E os cachos. Os cachos que me ganharam. Os cachos que enfeitiçam aquele sorriso que me devora. Os cachos em que uma bela mariposa pousou. E ela não se importou. Terminou sua canção e me fitou curiosa. “Fica ai, não se mexa”.

Teimosa, saltou sobre mim. Caímos deitadas. Ela em mim. Não poderia estar melhor.

IV

Não era um sonho. Ficamos estiradas sobre as margaridas e sob a sombra da árvore por longo tempo. A boa brisa bagunçava seus cachos. Senti a leveza daquele momento tão único. Queria ficar lá para sempre.

“Quero ficar aqui pra sempre”, ela disse.

A tarde chegava ao seu fim.

V

voamos para
o crepúsculo

habitamos no
eterno calor
e nas mais
belas cores.


Lucas Lopes. 23 de dezembro de 2016.

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2 comentários sobre “Calor em cinco atos

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