Sobre poesia marginal

seja-marginal
Seja Marginal, Seja Herói (1968), Hélio Oiticica.

Mais uma história de ônibus. E eu acho que sou muito sortudo em ser da periferia e em ser curioso. Mas dessa vez minha curiosidade não teve nada a ver com isso, juro. Foi a poesia. Culpa dela. Despretensiosa, roubou a minha atenção. Pensando melhor, havia muita pretensão, sim. E como havia!

Eu, aluado, voltei minha audição para a poesia que soava no 077. Dois rapazes abordaram o coletivo com arte: poesia marginal, segundo eles. Coisa forte, de impacto certo. Apontavam toda a hipocrisia de um sistema falido e de uma sociedade apodrecida. Cutucavam as feridas do povo de periferia, que sofre. Falavam do jovem preto, que morre. Bala perdida. “Como que se uma perde uma bala?”, diziam num dos versos. Falavam também da travesti, que apanha todo dia. E não esqueceram do donos do poder: em disputa política diária, enquanto o povo continua a padecer.

Meus olhos brilhavam mais a cada verso proferido. E ver o coletivo inteiro refletindo sobre aquelas palavras, ou balançando as cabeças em concordância ao que os dois diziam, foi o troféu do dia. Para mim. Para eles, sobretudo, que levam sua arte por onde passam. Que levam sua arte para o povo. Que retiram a poesia de uma ideia elitizada, centralizada. Que removem as vendas postas em nossos olhos. Que denunciam. Que resistem.

Que resistem!

E porque resistem, tive a oportunidade de presenciar tanta força e tanta energia.


Lucas Lopes. 18 de julho de 2017.

Anúncios

5 comentários sobre “Sobre poesia marginal

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s